[Resenha] Os Noivos do Inverno de Christelle Dabos
- Ana Carolina Camargos
- 3 de nov. de 2025
- 5 min de leitura

Considerações da Hillary
A sinopse do livro já nos dá sinais do enredo sobre o romance do livro: cita o casamento arranjado da protagonista, mas fala de perigos e um jogo político mortal. Nesse primeiro livro ela nos brinda com um slow burn com possibilidades de não haver romance algum, na verdade. Para leitores de fantasia sem romance, esse livro é um deleite. Para leitores de fantasia com romance, esse livro é um deleite.
A construção de mundo de Christelle não subestima seu leitor. Ela vai nos mostrando, cena a cena, como são os cenários, as pessoas e os costumes, que remetem a um tempo antigo da nossa realidade. Por se passar em um mundo que foi quebrado em algum momento, mas que tem magia em todo seu ser, logo percebemos que não se aproxima em nada do nosso mundo atual. O mundo onde vive Ophélie parece um mundo quebrado há mais de 120 anos, construído sob uma estética steampunk, mas com magia ao invés de tecnologia. Assim, a forma de descrição constante da autora não deixa que nossa mente nos engane, não deixa que esqueçamos que estamos em um visual antigo, apesar de a magia deixar tudo quase tecnológico. Da mesma forma, não esquecemos das características marcantes dos personagens — o que pode nos enganar em alguns casos kkkk, mas também evita que nos apaixonemos por personagens errados no momento errado.
Assim, entre uma estética antiga e muita magia, acompanhamos Ophélie na sua aventura que, sem querer, mudará seu caráter. A princípio, ela é uma personagem fácil de se identificar, afinal, precisamos reconhecer que a maioria de nós é muito condescendente, não temos coragem de reagir sobre muitas coisas, não temos coragem de ir contra quem nos criou, por exemplo. Mas, ao se ver sozinha e com a sua vida nas mãos de estranhos, Ophélie se vê obrigada a tomar as rédeas da própria vida. Assim, acompanhamos o crescimento pessoal dela independente de um romance, ainda que tudo seja culpa desse romance.
Além da uma fantasia diferente, ainda somos agraciados com referências — que podem ou não ter sido propositais —, como o casamento arranjado e pela primeira impressão que Ophélie tem dele sendo um urso branco (pelas roupas de pele branca que ele usava quando se conheceram), e o conto norueguês “A leste do sol, a oeste da lua”, de Peter Christen Asbjornsen e Jorgen Moe, de 1849. Na edição comentada do livro “Contos de fadas”, da Editora Zahar, este conto é referenciado como uma das histórias inspiradas em “Eros e Psiquê”, e no qual a história “A bela e a fera” foi inspirada. As três histórias têm como centro o amor que nasce de convivências forçadas, por filhas entregues para casamentos arranjados e os obstáculos que as mocinhas devem enfrentar para quebrar a maldição do homem e poderem finalmente ficar juntos.
Nesse conto norueguês a mocinha é uma das muitas filhas de um camponês pobre. Certo dia, um urso branco aparece na casa deles e pede a filha mais velha em casamento em troca de riquezas. Essa história lembra também uma história popular brasileira chamada “Maria Gomes”, que precisa entrar no mar e se casar com um ser estranho em troca de fartura na pescaria do pai, na versão de Ricardo Azevedo, ou então é abandonada na floresta e encontra um castelo encantado onde vive sozinha, servida pelo castelo, na versão de Luís da Câmara Cascudo. Nas duas versões, depois de um problema com a maldição do homem/ser, Maria Gomes precisa se vestir de homem e viver um tempo assim, escondida — como Ophélie como pajem —, para ajudar a quebrar a maldição do marido/noivo. As duas versões têm semelhanças diferentes com o conto norueguês, são adaptadas para o público infantojuvenil e se tornam ótimas releituras após finalizar o livro de Christelle, mesmo que provavelmente não sejam referências propositais da autora por se tratarem de histórias populares brasileiras.
Assim, como uma boa amante de referências, li todo o livro com um sorriso no rosto em busca de mais referências (além de uma mão na consciência pelo sofrimento da protagonista, outra mão no coração esperando o romance que poderia vir logo ou não — mas quem bom que não veio).
Considerações da Ana Carolina
Primeiro, confesso que me surpreendi quando escolheram Os Noivos do Inverno para integrar a lista de leituras do Clube Gaterário deste ano. Esse livro estava na minha lista pessoal há muito tempo, estava me encarando da estante, ou eu o encarava, não sei bem e, por alguma razão, seja tempo, prioridades, desvios de percurso, eu ainda não o havia lido. Mas acredito firmemente que os livros nos encontram quando é a hora certa de os lermos.
Além disso, como pesquisadora de literatura americana — do Norte e do Sul global —, fiquei feliz em descentralizar um pouco o olhar, deslocar o eixo e mergulhar em uma narrativa francesa contemporânea, acompanhando a trajetória da enigmática Ophelie, criação de Christelle Dabos. Brinquei com as meninas do clube dizendo que já sou suspeita: nossas últimas leituras foram todas surpreendentemente boas. Talvez tenhamos apenas bom gosto, ou sejamos condescendentes demais com a ficção. Mas deixando as brincadeiras de lado, o fato é que este livro recupera e explora a magia da fantasia de modo raro.
Vejo de forma muito positiva essa possibilidade de leitura da vida através da ficção. Não é de hoje que autores e teóricos se ocupam de explicar a antecipação da vida pela arte: Aristóteles, na Poética (séc. IV a.C.), já compreendia a mímesis como uma forma de aprender o mundo pela imitação; Platão, em A República (séc. IV a.C.), via na ficção uma sombra perigosa do real; Roland Barthes, em O Prazer do Texto (1973), sugeriu que toda narrativa é movida pelo desejo do real; e Umberto Eco, em Seis passeios pelos bosques da ficção (1994), lembrou que a literatura nos ensina a viver experiências imaginárias que preparam a vida real. E é justamente isso que Dabos faz.
Pensando nisso, talvez a principal característica da protagonista — atenção, contém spoiler para leitores não corajosos — seja o fato de que Ophelie só consegue atravessar espelhos quando é capaz de se reconhecer verdadeiramente neles. Essa condição parece uma metáfora poderosa para a própria existência: quantas vezes o ato de se olhar no espelho não se torna uma tarefa árdua quando estamos em desacordo com o que somos? Vestimos máscaras para enganar os outros, mas, na verdade, é a nós mesmos que não conseguimos iludir. Não há metáfora mais bela (e dolorosa) para a condição contemporânea: quantas vezes evitamos o próprio reflexo porque não suportamos o desalinho entre o que somos e o que mostramos? Vestimos máscaras sociais, mas o espelho, como a literatura, não aceita disfarces.
Acompanhando Ophelie, sentimos que ela também nos acompanha. A narrativa é profundamente sensorial, ou seja, cheia de cheiros, texturas, visões e nos faz viver cada situação ao lado da personagem. E de vez em quando é bom mesmo seguir personagens “ordinários”, simples e reais, para lembrar que, se eles conseguem enfrentar dragões, guerreiros e pessoas com poderes que desnudam a alma, nós também conseguimos encarar o espelho e enfrentar nossas próprias batalhas.
Em termos de técnica e linguagem, nos deliciamos com uma narrativa que desafia o leitor: sem linearidade, sem explicações didáticas, como se Dabos pressupusesse que já somos íntimos daquele universo. Nada é entregue mastigado. O romance romântico que talvez muitos esperem se dá mais por sugestão do que por acontecimento. O enredo se desloca para algo próximo de um coming of rage, centrado em conflitos de identidade, maquinações políticas e no silenciamento do eu.
Pessoalmente, fiquei completamente entretida. Me deleitei a cada página e acabei me apaixonando tanto pela narrativa que li, sem intervalo, os outros volumes da série. Os Noivos do Inverno foi um dos pontos altos do meu ano de leituras e a prova de que, às vezes, é preciso atravessar espelhos para continuar lendo o mundo.
Conheça os outros títulos da série "Noivos do Inverno"
Livro 1: Os Noivos do Inverno
Livro 2: Desaparecidos em Luz da Lua
Livro 3: A Memória de Babel
Livro 4: A Tempestade de Ecos

Veja as fotos do encontro abaixo:














![[Encontro] Os Noivos do Inverno de Christelle Dabos](https://static.wixstatic.com/media/2b8ed5_7ee8475bead143d99be09b67086ea114~mv2.jpg/v1/fill/w_653,h_1000,al_c,q_85,enc_avif,quality_auto/2b8ed5_7ee8475bead143d99be09b67086ea114~mv2.jpg)
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