[Resenha] "Pedro Páramo" de Juan Rulfo
- Clube Gaterário

- 4 de nov. de 2025
- 4 min de leitura

Considerações da Hillary
Não vou mentir, esse realmente é um livro difícil de ler. Mas não é pelo vocabulário nem pela história, é só pela linha do tempo que não existe mesmo. O personagem Juan Preciado chega a Comala em busca do pai, a pedido da mãe no leito de morte. Vai encontrando personagens no caminho, até perceber que todos com quem falou até então estão mortos, além de descobrir que seu pai também já estava morto havia anos — toda a cidade estava.
Com cenas intercaladas entre presente e passado, descobrimos como tudo aconteceu desde a infância de Pedro Páramo, o que aconteceu para que se tornasse quem se tornou e tudo culminasse na morte de todos ali. Nesse vai e em de lembranças de fantasmas diferentes, a gente pode se perder um pouco em quem está falando, quem é quem, quem morreu quando e se alguém ainda pode estar vivo ali. Teoricamente, Juan chegou a uma cidade deserta e morreu de medo, literalmente. Mas ele foi enterrado, e enterraram a mendiga Dorotea sobre ele. Os dois conversam ali, enterrados, ouvindo outros mortos ao redor. Mas, se a cidade estava toda morta, quem os enterrou?
Confesso que assisti ao filme de 2024 para entender um pouco mais. Só descobri que na leitura eu confundi a Dorotea com a mulher nua da casa, mas no filme não eram a mesma pessoa. Mas a linha do tempo do filme é um pouco vai e vem igual do livro, mas acabou não adaptando todas as cenas. A mãe de Juan mesmo quase nem aparece. Nem mesmo a irmã dela com quem ela vai morar com o filho.
Esse não é um livro de uma leitura só, mas facilita que seja curto, rápido de ler e envolvente, apesar da loucura no tempo. Não é como Cem anos de solidão que é muito grande e dá preguiça de reler para pegar detalhes que talvez escapem à nossa memória. Esse aqui poderia ser lido todo mês, até cansar. E também é um livro que nos instiga a querer estudar sobre. E não é nem no sentido de desvendar tudo, mas de saber o que os outros estudaram tanto sobre ele. E porque foi tão inovador e posto como a inspiração para Cem anos, além de inspiração para o crescimento do gênero do Realismo Mágico, mesmo que outras histórias que cabem nessas características destacadas do gênero existissem antes dele.
Considerações da Ana Carolina
Ler Pedro Páramo foi uma experiência tão instigante quanto divertida. Nosso encontro aconteceu justamente no dia de Halloween e, embora o livro dialogue muito mais com o espírito do Día de los Muertos mexicano (que ocorre em datas e contextos culturais bem distintos), a coincidência de discutir uma cidade fantasma nesse dia foi irresistivelmente simbólica.
A Ana Cláudia, outra integrante do grupo, conduziu a conversa de forma brilhante e nos levou a algumas reflexões importantes. Uma delas foi sobre o título e a capa: até que ponto correspondem ao conteúdo do livro depois de lido? Confesso que comecei a leitura completamente às cegas, apenas sabendo que se tratava de um dos grandes marcos do realismo mágico latino-americano. Imaginava que Pedro Páramo seria o narrador, o protagonista absoluto, e que, portanto, leria um relato em primeira pessoa.
Salvo engano. Rulfo subverte qualquer expectativa. O romance é uma espécie de livro de memórias fragmentadas, uma narrativa não linear em que tudo o que sabemos sobre os personagens nos chega pela lembrança, pela voz ou pelo delírio de outros, ou seja, encontramos narradores não-confiáveis. Essa estrutura faz de Pedro Páramo um texto de ecos e fantasmas, não apenas porque seus personagens habitam o limiar entre vida e morte, mas porque a própria narrativa parece assombrada pelas vozes do passado.
Por todos os seus crimes, omissões e culpas, ninguém aqui é confiável. E talvez por isso o livro seja tão fascinante: é uma história contada por mortos, mas que fala de tudo o que ainda pulsa. Rulfo faz da brevidade sua força, em poucas páginas, entrega um universo denso, espiralado, que exige do leitor atenção e entrega total.
Sem divisões de capítulos e sem linearidade, o texto desafia: é fácil se perder, mas é nesse labirinto que reside seu encanto. Cada retorno à leitura revela uma nova camada, um novo sentido, como se o livro se reescrevesse a cada leitor.
Pedro Páramo carrega o que há de melhor na literatura: a mistura de mito e memória, de realidade e fantasma, de silêncio e de voz. Não é difícil entender por que Gabriel García Márquez considerou Rulfo uma de suas maiores influências, o próprio autor de Cem Anos de Solidão dizia que, depois de ler Pedro Páramo, percebeu que poderia escrever sobre Macondo. Foi, sem dúvida, uma leitura marcante, daquelas que nos fazem pensar não apenas sobre literatura, mas sobre o que resiste quando tudo se desfaz: o corpo, a cidade, o nome. Porque, no fim, são as lembranças, as memórias e os ecos que permanecem.













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